Ainda umas últimas palavras …

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Estas serão as últimas palavras que escreverei como pároco de Linda-a-Velha, a não ser que a vontade de Deus me obrigue a ter que as refazer. Mas se tiver de ser, pois que remédio, lá as terei de assumir como erróneas.
Em primeiro lugar agradecer o generosa disponibilidade e a docilidade com que fui acolhido por todos os paroquianos. Desde 2009 tenho experimentado o carinho e o respeito de todos, mesmo quando, e em variadas situações, não temos as mesmas soluções nem as mesmas ideias para os mesmos problemas. Um grande obrigado… Com O grande!
Depois dizer-vos também obrigado pela oportunidade que me deram, em acompanhar-vos na consolidação da pastoral da paroquia, nos seus vários movimentos, da restruturação do centro social e da escola de música. Foram tremendos mas vigorosos desafios que me amadureceram como homem e como pastor. Por isso devo-vos muito, e provavelmente nunca poderei resgatar o que me foi dado.
Por último, e citando Antoine de Saint-Exupéry, particularmente para os que estão mais tristes com o fim da minha missão na comunidade paroquial de Linda-a-Velha: “Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”
Deixemos as recompensas para o Pai do Céu e acolhamos bem o novo pastor.

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Ser mãe é aceitar. Tudo.

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Por José Luís Nunes Martins in jornal I em 3 Maio 2014

Ser mãe é receber em si um outro que lhe vem de fora e acolhê-lo em vista de um futuro que pressente mas que, de maneira nenhuma, sabe explicar. Ser mãe é, antes de mais, aceitar. Tudo. Tudo.

É aceitar em si um outro para o qual ela se torna o mundo: gerando-o, alimentando-o, comendo, bebendo e respirando com ele… ele dentro de si, ela em volta dele.

É deixar esse outro ir embora e voltar a recebê-lo em cada dia, quando ele volta, quando ele se revolta e, também, quando ele não volta…

Ser mãe é acolher o que o outro lhe dá. Mas não como quem se alimenta do que lhe vem de fora, transformando-o em vida, que acolhe em si, e devolvendo ao mundo, já morto, aquilo que sobra. Ser é mãe é dar-se como alimento, transformando-se na vida daquele a quem se dá para depois… voltar depois ao mundo, gasta, apenas com o que lhe sobra.

Ser mãe é dar-se. Aceitando sempre qualquer resultado e resposta.

Uma mãe, mais do que dar um filho ao mundo, deve dar um mundo ao filho. Um melhor que este, cheio de esperança e sonhos, com formas e forças para o concretizar. Dando-se. Abdicando de si. Amando da forma mais sublime e real, pura e concreta. Humana e divina. Acolhendo como sua esta obrigação absoluta de amar quem nem sempre se dá conta do seu valor.

É experimentar uma vida em que a alegria se conjuga com a tristeza, a graça com a desgraça, a esperança com o desespero. Como se as emoções tivessem uma amplitude gigantesca mas onde, ainda assim, importa garantir que todas as tempestades interiores não se vêem do exterior… uma mãe dá a paz que tantas vezes não tem.

Talvez a família seja uma casa com paredes duplas. A mãe é a parede interior que inspira e orienta a interioridade. O pai é a parede exterior que protege e garante a sobrevivência… no entanto, perante a falta do outro, uma mãe é capaz de quase tudo; um pai, também.

Uma boa mãe é um mistério com três dons: a simplicidade, a presença e o silêncio.

Está sempre presente, quase sempre atenta e em silêncio, e é a partir daí que nos chegam as mais sábias perguntas e respostas. De forma simples: ama-nos.

Ser mãe já é ser perfeito. Nenhuma mãe tem em si todas as qualidades humanas e, menos ainda, viva sem erros, mas, apesar de tudo, abraça os filhos tal como são, por poucas qualidades que tenham, por maiores que sejam os seus erros… ser mãe, assim, é quanto basta para ser perfeito.

Uma mãe perdoa sempre. Ainda que de coração sacrificado, prefere pensar que a culpa é sua e não de quem assim a crucifica. Aceita tudo. Sem exigir nada. Afinal, uma mãe é Deus connosco.

Ensina-nos a ser mais fortes que os medos, não através discursos inspirados, mas pela grandeza e humildade do seu exemplo. É capaz de nos oferecer o mar com um só sorriso e a vida inteira com uma só lágrima… que não será mais que uma gota do imenso mar do seu amor.

Longe da nossa mãe, não serão tanto as carícias e ternuras que nos fazem falta, mas a sua generosa e bondosa forma de nos aceitar assim, tal como somos…

Uma mãe vê-nos a alma só de nos admirar o olhar.

Há poucas mães. Muitas mulheres têm filhos mas não são mães, porque há poucas que sejam mais fortes que os egoísmos… há quem julgue que ser mãe é ter filhos. Mas ser mãe não é ter, é ser. Ser só. Ser-se quem se é nos filhos e pelos filhos. É viver em pleno entre dois corações. É ser mais… por ser menos.

Palavras do Prior

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Suponho que alguns dos meus estimados paroquianos notaram a minha ausência nesta quinta-feira, não podendo estar, como era meu gosto, no início do Mês de Maria nem na segunda época das promessas do nosso 626.
Obviamente também que não fugi, mas estive em Fátima, a participar naquele que é o I Congresso Ibérico da Pastoral Penitenciária.
Sinal visível do compromisso da Igreja com os mais pobres dos pobres, os reclusos, reuniu e, Fátima algumas centenas de pessoas, bispos padres e leigos, que se preocupam em configurar Jesus Cristo que não abandona aqueles que são encarcerados.
Neste contexto, sei que estou atrasado em algum tempo com um conjunto de paroquianos, mas não estão esquecidos, pois brevemente terei notícias.
No entanto hoje queria dirigir-me a todos citando S. João Paulo II na Christifideles laici: “redescobrir e fazer redescobrir a dignidade inviolável de cada pessoa humana constitui a missão essencial, e, em certo sentido, é a missão central e unificante que a Igreja é chamada a realizar”
O recluso, apesar da nossa sociedade aparentemente o negar, mantém este carácter inviolável. E aqui há muito a catequizar e a mudar!

313 – 2013, ou a afirmação da consciência

Constantine
Manuel Clemente in Lisboa, Universidade Católica Portuguesa, 3 de dezembro de 2013
Mesmo perseguido, o cristianismo crescera muito no Império Romano. Subiria duns três milhões, em meados do século III, para o dobro no princípio do seguinte, constituindo um décimo do total de habitantes.
Pode ter sido este o motivo maior para a mudança de atitude dos governantes em relação aos cristãos. Preocupados como estavam com a defesa do Império, procurariam no concurso da fé em crescendo um fator mais de coesão interna, ao contrário do que até aí se considerava.
A 30 de abril de 311 – pouco depois da grande perseguição de Diocleciano, que não conseguira os seus intentos – o imperador Galério dispôs num édito que fosse permitido aos cristãos existirem publicamente, reconstruirem os seus lugares de culto e reunirem-se entre si, com a condição de respeitarem as leis. Com estas disposições e pela primeira vez no Império, o cristianismo era juridicamente reconhecido, tornando-se religio licita.
Era um passo fundamental em direção a outra convivência Igreja – Império. Reforçado pelo seguinte, dois anos depois, com o assim chamado édito de Milão. Em fevereiro de 313, Constantino e Licínio – que já tinham subscrito o édito de Galério – trataram nessa cidade de vários problemas do Império, incluindo a situação dos cristãos.
Uma carta de Licínio ao governador da Bitínia, a 13 de junho desse mesmo ano, dá-nos conta do que decidiram. Entre outras coisas, o seguinte: «Nós, pois, Constantino Augusto e Licínio Augusto, reunidos felizmente em Milão para tratar de tudo o que respeita ao interesse e segurança do Império, pensámos que, entre o que mais exigia a nossa atuação, nada traria tanta vantagem à maior parte dos homens, como decidir de que modo se deve honrar a divindade. Por isso, resolvemos conceder aos cristãos e a todos os outros a liberdade de seguirem a religião em que cada um crê, a fim de que a divindade que está no céu, qualquer que ela seja, nos prodigalize a nós e a todos os nossos súbditos a paz e a prosperidade. Pensámos ser um ótimo e muito razoável sistema não negar a nenhum dos nossos súbditos, cristãos ou de outro culto, a liberdade de praticar a religião que quiser: assim, a suprema divindade, que cada um de nós livremente adora, quererá conceder-nos o seu favor e a habitual benevolência» (texto em Lactâncio, De mortibus persecutorum, 48 e Eusébio de Cesareia, Historia Ecclesiastica, X, 5).
Arnaldo Marcone, mais recente biógrafo de Constantino, comenta assim: «Uma leitura atenta deste documento […] permite-nos captar a finalidade principal do que foi acordado em Milão entre Constantino e Licínio. O primeiro objetivo foi obter a paz religiosa, justamente considerada indispensável para o bem-estar do Império, perturbado por uma década de perseguições contra os cristãos. A publica quies a restabelecer e tutelar é efetivamente um dos argumentos enfatizados» (Arnaldo Marcone, Pagano e cristiano. Vita e mito di Costantino, Roma, Editori Laterza, 2002, p.85-86).
Mas Marcone divisa mais, nas disposições de 313. Vê nelas o indício claro de que, para Constantino, se tratava dum passo em direção à cristianização do Império. Ainda e só o passo possível, mas já nesse sentido: «A aspiração à tutela e à proteção divina já estivera em Diocleciano e encontrava-se também no édito de Galério. Mas as analíticas e precisas disposições a favor dos cristãos [em 313] indicam que o proclamado pluralismo religioso era apenas uma opção de natureza contingente. Como logicamente seria de esperar, Constantino queria para si e para o seu Império um deus bem preciso» (ibidem, p. 86),
Muito mais do que de Licínio, a decisão fora de Constantino, cuja evolução religiosa o aproximara da fé cristã. Para além da influência de sua mãe Helena, terá sido decisivo algo que acontecera no Outono de 312, por ocasião da sua batalha com o rival Maxêncio, ao pé de Roma (Ponte Mílvio). Concordando os relatos de Lactâncio e Eusébio, apuram-se dois pontos principais: que Constantino sentiu então um especial auxílio divino; e que adotou na batalha um sinal referente a Cristo.
Desde então, e até à sua morte em 337, Constantino considerou-se cristão. Manifestou-o com doações e edificações de templos, e também intervindo diretamente na vida da Igreja (concílio de Niceia, 325) e expurgando o culto imperial de conotações pagãs. O seu batismo tardio, pouco antes de morrer, em NIcomédia, não saía da prática corrente de postergar um ato que exigia uma grande mudança de hábitos e atitudes, sob pena de submissão à penitência pública, que parecia destoar da dignidade imperial (cf. Vincenzo Monachino, Il cristianesimo da Constantino a Teodosio, Roma, Edizioni P.U.G., 1979, p. 116-117). Como se esboçasse já as inevitáveis contradições dos soberanos “católicos”…
Fosse como fosse, o certo é que a política religiosa de Constantino deu azo ao desenvolvimento duma teologia do Império cristão, que perduraria muito tempo. Não lhe faltando raízes bíblicas, em tudo quanto se escrevera sobre os reis ungidos do antigo Israel, acrescentara-se a reflexão de origem grega sobre o Logos divino, que, de Cristo ao imperador cristão, garantiria a autêntica ordem do mundo.
Isto mesmo foi estudado e esclarecido por Pierre Maraval, na obra que dedicou aos discursos que Eusébio de Cesareia dirigiu ao imperador, pouco tempos antes da morte deste (Triakontaétérikos). Neles se faz o paralelo entre as características do Logos e as de Constantino, em vários itens: o Logos reina sempre e o imperador já reinava há muito; o imperador preparava os súbditos para o reino do alto; submetia os inimigos da verdade; proclamava «as leis da piedade verdadeira»; procurava assegurar a salvação de todos… Pelas suas virtudes – participação na razão universal, na sabedoria, na bondade, na justiça, na temperança, na coragem do Logos -, o imperador manifestava participar no Logos, daí tirando a legitimidade do seu poder (cf. Pierre Maraval, Introduction à Eusèbe de Césarée, La théologie politique de l’Empire chrétien. Louanges de Constantin (Triakontaétérikos), Paris, Cerf, 2001, p. 54).
Desta teorização nasciam consequências estruturais e práticas, basicamente duas: 1ª) Relacionada a realeza celeste com a terrestre, esta só poderia ser única e universal (imperial). No dizer de Eusébio, havendo um só Deus, só poderia haver também «um só rei, um só Logos, uma só lei régia». 2ª) Coincidentemente, nem o imperador nem o Império deveriam ser outra coisa senão cristãos. Eusébio podia assim alargar as vistas ao conjunto da história humana, afinal convergente para o Império cristão, que o mesmo seria dizer a salvação universal (cf. Ibidem, p. 55-56).
Do Império cristão de Eusébio de Cesareia (século IV) ao Quinto Império do nosso António Vieira (século XVII), o desígnio é o mesmo, providencial, missionário e universalista, na mais vasta das teologias políticas. Através de Roma ou de Portugal, seria o mesmo. No caso de Eusébio, resumamos com Maraval: «O Império torna-se instrumento da Providência, querido por Deus para unificar todos os povos sob a mesma autoridade, trazer a paz e facilitar desse modo a circulação e a liberdade de pregação dos que difundiriam a mensagem evangélica» (cf. Ibidem, p. 60).
Ganhou-se certamente um ponto preciso e precioso para fundamentar a ação política em termos globais. E, enquanto referido ao Evangelho, teria neste uma base irrecusável para avaliar as práticas que à sua sombra se intentassem.
Todas as concretizações do Império cristão que se seguiram, tanto alegaram motivações evangélicas ou bíblicas, como foram postas em causa através destas mesmas. Os próprios revolucionários modernos e contemporâneos, mesmo não crentes, abundaram em alusões desse tipo.
Mas algo se esquecera entretanto. No fundo, a “lei” evangélica que – diversamente da especulação filosófica grega ou da formalização jurídica romana, que aliás não invalida -, segue sempre do concreto para o abstrato, da pessoa para a sociedade, da pequena semente para a terra larga, do pouco de fermento para a massa que há de levedar. O que demora tempo, requer espaço e contraria voluntarismos, mesmo bem-intencionados.
É certo que o mais “internacional” dos evangelistas enquadra imperialmente o nascimento de Cristo: «Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, subiu até à Judeia, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida» (Lc 2, 1-5).
Tudo aqui parece vir “de cima para baixo”, repercutindo na base o que parte unicamente do topo, de Roma para a Síria e da Síria para a Judeia. Mas reparemos que o fundamental e radicalmente novo vem depois, com o nascimento e a vida de Cristo, tão “básicos” e desapercebidos quase. Nascimento e vida que não invalidam o Império, na respetiva ordem, mas lhe retiram qualquer pretensão divina, apenas por si próprio.
O Império vale na ordem terrena e temporal, sem se confundir com Deus, que, Este sim, criando os homens em sociedade, lhes predispõe um ordenamento político. E o juízo é sempre da consciência humana e informada, que tanto respeita a ordenação divina das coisas como julga da conformidade destas com a lei mais alta a que devem obedecer.
É por isso que tanto ouvimos Jesus a mandar pagar o tributo a César, como a acrescentar que se dê a Deus o que é de Deus (cf. Mt 22, 15-22). É ainda por isso que Jesus tanto atesta, de algum modo, a autoridade de Pilatos, como mantém a sua libérrima decisão de prosseguir até ao fim, mesmo que tal lhe valesse a morte (cf. Jo 19, 11). O verdadeiro “império cristão” tem o seu trono na consciência humana. Consciência que, sendo pessoal, é sempre responsável e reflexa, ou seja, de incidência social.
Assim mesmo esclareceu o Concílio Vaticano II, quando – após séculos de árduos apuramentos práticos e doutrinais – aprovou, a 7 de dezembro de 1965, a declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa. Em passagens como a seguinte: «Este Concìlio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Tal liberdade consiste em que todos os homens devem estar imunes de coação, quer da parte de pessoas particulares, quer de grupos sociais ou de qualquer poder humano, de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja obrigado a agir contra a sua consciência, nem impedido de agir de acordo com ela, privada ou publicamente, só ou associado a outros, dentro dos devidos limites. Além disso, declara que o direito à liberdade religiosa tem realmente o seu fundamento na própria dignidade da pessoa humana» (DH, 2).
Como tudo o que é humano, a consciência é relacional também, tendendo para a relação absoluta em que a verdade assenta. Ainda aí, sobretudo aí, há de gozar de inteira liberdade. Acrescenta o Concílio, superando equívocos que persistiram muito tempo: «Os homens não podem satisfazer esta obrigação [de procurar a verdade e aderir-lhe] de modo adequado à sua natureza, se não gozarem de liberdade psicológica e ao mesmo tempo de imunidade de coação externa. Portanto, o direito à liberdade religiosa não se funda numa disposição subjetiva da pessoa, mas na sua própria natureza» (ibidem).
Tal relação com a verdade é geralmente mediada pela relação com os outros e com o concurso deles, caminheiros da mesma estrada: «A verdade deve procurar-se de modo apropriado à dignidade da pessoa humana e à sua natureza social, isto é, com uma investigação livre, ajudada pelo ensino e pela educação, por meio da comunicação e do diálogo, a fim de que, pelo apoio mútuo na procura, uns revelem aos outros a verdade que descobriram ou que pensam ter descoberto; e, uma vez conhecida essa verdade, devem aderir firmemente a ela com assentimento pessoal» (DH, 3).
Mesmo – e sobretudo – em tempos como o nosso, quando, afastada a fundamentação religiosa imediata do ordenamento sociopolítico, se pretendesse substituí-la, mais subliminarmente, por um positivismo jurídico de qualquer espécie. É muito interessante a reflexão que, a este respeito, faz o Cardeal Ângelo Scola, quase a concluir o livro que publicou 1 700 anos depois do “édito de Milão” – a cidade de que é arcebispo: «Sempre que não for possível chegar a acordo sobre os princípios irrenunciáveis com os outros “habitantes” da sociedade plural, recorrer-se-á à objeção de consciência. Esta última, aliás, ao contrário do que alguns consideram, não tem apenas o objetivo particular de isentar um sujeito de comportamentos inaceitáveis para ele, mas também chama a atenção geral para temáticas em relação às quais se considere que ainda não se formou uma sensibilidade adequada, dando assim um importante contributo para o debate público. Sobre esta dimensão social da objeção de consciência é mais do que nunca necessária uma larga reflexão, que, infelizmente, hoje ainda falta» (Ângelo Scola, Não nos esqueçamos de Deus. Liberdade de fé, cultura e política, Lisboa, Paulinas, 2013, p. 84).
Há dezassete séculos, o Império mudou a sua política religiosa, em benefício da consciência cristã. Hoje cabe particularmente aos cristãos reforçarem a liberdade de consciência, em benefício da sociedade de todos.

O que pensava Fernando Pessoa da República.

in Esquinas.org, 2010.02.01

O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a República é que não estava. Grandes são as virtudes (de) coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas!

Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos – porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida), gatunos com seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos, de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regime a que, por contraste com a Monarquia que o precedera, se decidiu chamar República.
A Monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis de família, a lei de separação da Igreja do Estado — todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais.
A Monarquia havia desperdiçado, estúpida e imoralmente, os dinheiros públicos. O país, disse Dias Ferreira, era governado por quadrilhas de ladrões. E a República que veio multiplicou por qualquer coisa – concedamos generosamente que foi só por dois (e basta) – os escândalos financeiros da Monarquia.
A Monarquia, desagradando à Nação, e não saindo espontaneamente, criara um estado revolucionário. A República veio e criou dois ou três estados revolucionários. No tempo da Monarquia, estava ela, a Monarquia, de um lado; do outro estavam, juntos, de simples republicanos a anarquistas, os revolucionários todos. Sobrevinda a República, passaram a ser os republicanos revolucionários entre si, e os monárquicos depostos passaram a ser revolucionários também. A Monarquia não conseguira resolver o problema da ordem; a República instituiu a desordem múltipla.
É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira , não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na Monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na República não era possível, porque era perigoso insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa.
O sociólogo pode reconhecer que a vinda da República teve a vantagem de anarquizar o país, de o encher de intranquilidade permanente, e estas coisas podem designar-se como vantagens porque, quebrando a estagnação, podem preparar qualquer reacção que produza uma causa mais alta e melhor. Mas nem os republicanos pretendiam este resultado nem ele pode surgir senão como reacção contra eles.
E o regime está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que por direito mental devem alimentar-se.
Este regime é uma conspurcação espiritual. A Monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco socialmente, será nada nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com o nada absoluto que a República veio (a) ser.

… por que vale a pena acreditar no futuro!

Retirado de um blog

Por um venerando ancião de 84 anos, uma multidão de jovens ouviu as razões por que vale a pena acreditar no futuro!

O mesmo ancião relembrou aos senadores e aos mais altos dignitários do Estado alemão as fases obscuras da sua história, com um alerta pungente para o risco de alguns erros se virem a repetir, naturalmente com outras configurações.

Foi ainda o mesmo ancião, alemão de nascença, a assumir perante judeus o horror do holocausto. Por seu turno, como católico reconheceu, junto dos protestantes, os ensinamentos de Martinho Lutero. Como cristão, agradeceu aos muçulmanos o testemunho de fé dos filhos de Maomé. Aos alemães apontou como figuras históricas de referência vários estrangeiros, todos eles santos. E assinalou-lhes a pobreza humana que se esconde naquela sociedade de enorme bem-estar e eficiência. A um italiano explicou que a sua profunda matriz germânica se engrandecia na pertença ao «povo de todos os povos»,
conforme definiu, poeticamente, a Igreja. Tudo isto nos quatro dias da Visita Pastoral de Bento XVI à Alemanha. Mais uma viagem memorável, com mensagens antológicas. Arriscaria dizer: intemporais. Nas terras que pertenceram à zona de ocupação soviética (DDR), o Papa falou simultaneamente à Europa rica e envelhecida, e às gerações mais novas, empenhado em antecipar um futuro pleno de humanidade e liberdade. O lema da Visita apontava uma bússola: «Onde há Deus, há futuro.»

O Papa filósofo e pedagogo é pródigo em acordar sentidos novos nos conceitos mais batidos, daqueles que nos habituámos a banalizar. A sua abordagem cristalina e revolucionária (talvez por ser cristalina) torna tudo simples e, sobretudo, de uma beleza imensa. É um efeito semelhante ao daqueles restauros felizes, que redescobrem a riqueza de telas engelhadas e pardas.